Entrevista com Martinho Xizoro: “sou um estilista por acidente”

Por Tânia Ngonhamo 0

Martinho José Cossa é um jovem estilista moçambicano, uma das actuais referências na moda, principalmente na hora de juntar capulana à outros tecidos e/ou acessórios. Nascido em Maputo, 1993, no Hospital Central, olha para a moda como vida e nesta entrevista repleta de revelações, o autor da colecção do momento “Mudjansse”, fala sobre o início de tudo e o actual estágio da sua carreira.

Em poucas palavras, quem é Martinho?

É difícil falar de mim porque sou uma pessoa que está em constante mudança o que dá a impressão de estar a mentir sobre o que descrevo. Martinho é um jovem estilista que está a emergir agora, estudante de gestão financeira, 4° ano, na Universidade Técnica de Moçambique  (UDM) e tem 24 anos. Sempre fui um jovem diferente de todos, para além de ter sido preguiçoso, eu era um “patinho feio”, tinha uns problemas na cabeça então em alguns momentos eu me achava diferente dos outros, até porque em algum momento minha forma de vestir era diferente dos outros rapazes da minha idade.

Como é que entra no mundo da moda?

Tudo começou em 2012, no ano anterior eu acabava de completar o ensino secundário e estava previsto que em 2012 começasse a frequentar uma faculdade, o que não foi possível, então acabei ficando sem nenhuma ocupação nesse ano.

E nessa época eu já gostava de me vestir bem, pelo menos eu achava isso. Criava combinações e alguns amigos já elogiavam-me. Lembro que fazia uma colecção de sapatos que estavam em alta aqui na cidade, a sola era revestida de saco (sisal), eu tinha de várias cores. O que acontecia é que depois de ser lavado repetidamente ele perdia cor e na altura eu queria ir a um festival mas o sapato já não tinha cor e associado à isto, tinha também um boxer do qual eu gostava muito, então surgiu a ideia de forrar o sapato com o boxer. Entretanto, apresentei a ideia à minha mãe, que também costura, senhora Francisca, e ela só perguntou como faremos isso, respondemos à questão com as mãos – foi um pega aqui, corta ali e quando demos por nós o sapato já tinha outro aspecto. Por isso, costumo dizer que sou estilista por acidente.

No ano seguinte, novamente, não admito à faculdade  e eu tinha que arranjar uma ocupação  e uma forma de conseguir dinheiro.  Daí eu pensei, vou forrar sapatos e veremos o que acontece. no início forrava apenas meus sapatos e de pessoas conhecidas. Em Setembro decido publicar nas redes sociais o que eu fazia, para que as pessoas conhecessem o meu trabalho e, felizmente nesse momento eu conheci alguém que me incentivava a trabalhar e sempre dizia “não reclama de dinheiro, tu podes fazer”.

E a marca XIZORO?

Em 2014 começo a frequentar a faculdade, e lá o trabalhou tornou-se mais sólido, porque nessa altura eu vestia os meus conjuntos para faculdade, e como no primeiro ano de faculdade todos querem se vestir bem usei este momento como oportunidade para “me vender”, as pessoas viam, gostavam e encomendavam. Os clientes começaram a parecer assim, tanto que eu já nem vestia minhas roupas, vendia-as.

Então no final de 2014 eu decidi criar uma marca, já existia nas redes sociais um nome que pessoas podiam procurar e me encontravam para fazer suas encomendas, e se chamava MAR-BZK. A ideia de criar a marca surgiu comigo e alguém que com quem andava, logo apresentei a ideia a minha mãe e ela aprovou.

Porquê o nome XIZORO?

Nós usamos tesoura para quase tudo, para cortar o tecido para forrar os sapatos, para cortar os moldes das camisas, para cortar linha e tantas outras coisas. Então, surgiu a ideia de dar nome de tesoura, mas não podia ser tesoura, tinha que ser algo diferente, que as pessoas já conhecessem mas se perguntassem o que é e que gostassem de pronunciar. Lembro que na altura o grupo música New Joint acabava de lançar a música Xibeke e as pessoas gostavam de pronunciar isso, foi numa altura em que as pessoas já se despiam da vergonha de falar as línguas locais. Com isso, mais uma vez, eu e minha mãe decidimos fazer uma pesquisa que consistia em procurar a tradução da palavra tesoura nas diferentes línguas locais, constatamos que não havia grande diferença nas traduções, o que pesava mais era como as pessoas pronunciavam e acabamos por ficar com XIZORO por ter uma pronúncia mais suave.

Porquê escolheu a capulana?

Porque a capulana é nossa [risos…], eu sou de Moçambique, sou muito África. É um facto que nós sofremos muito com influências internacionais, tanto é que apesar de usarmos detalhes de capulana nas nossas roupas, elas são influenciadas pela moda internacional. O simples facto de sermos africanos e vestimos roupa é fruto do ocidente. Mas a ideia é responder à questões como: o que se usou para te carregar no colo, o que se usou mesmo como fralda quando eras bebé e a resposta é  capulana. Então eu usei a capulana como minha identidade, porque é o que me carrega.

É a capulana que nós carregamos à mala quando viajamos e queremos levar algo que seja nosso para oferecer. Até parece que não temos outra coisa, mas o que nos apraz levar é a capulana.

A capulana para si, é uma vantagem ou oportunidade?

Eu acho que sejam as duas coisas. É uma vantagem que cria oportunidade, porque se eu uso capulana é bom para mim e é bom para minha cultura o que torna uma vantagem e é oportunidade porque se eu uso a capulana, nenhum estilista internacional vai criar uma colecção com base na capulana da mesma forma que eu uso, então é uma oportunidade porque poderei mostrar o meu trabalho.

As suas roupas referenciam a cultura moçambicana, há um traço de Moçambique sempre presente. Mais que um adereço ou marca para o seu trabalho, considera essa abordagem como uma responsabilidade sua como estilista moçambicano?

Considero sim, porque se saio de Moçambique e as pessoas perguntam o que é XIZORO, eu estarei a responder pelo meu país, antes de responder por mim. Direi XIZORO é tesoura num dialeto de Moçambique. E nesse momento eu estou a responder por todos, daí a responsabilidade.

Inspira-se em alguém?

Não [risos…]. Em Moçambique não. Internacionalmente admiro o Kanye West, olho para ele e vejo alguém feliz, que diz hoje eu acordei e quero vestir assim e ele veste, sem ter que olhar para o que os outros vestem. Os meus momentos de inspiração vêm mais quando estou preocupado com algo e este trabalho serve de terapia actualmente.

Como define o teu estilo?

Não sei definir meu estilo..

O que a moda representa em sua vida?

Vida!

Em que momento atinge o auge na sua carreira?

Em 2015 a marca atinge seu auge, como o lançamento da colecção Long Line da linha das famosas Long Size, havia na altura muita procura dessas camisas e as pessoas não sabiam onde encontrar e eu pude oferecer este produto às pessoas. Da linha das Long Size eu acrescentei os detalhes de capulana e dei o nome de Long Line e as pessoas receberam muito bem.

Então foi em 2014, os sapatos forrados com capulana, logo a seguir em 2015 as pessoas estavam a espera de algo novo, assim o fiz com esta colecção, que era tanto para homens como para mulheres. As redes sociais ajudaram muito e não só, depois de ter lançado a marca XIZORO as vendas aumentaram, digo sempre que o nome ajudou a vender.

Houve há pouco tempo uma réplica daquilo que foi o África Fashion Week Brasil aqui na embaixada do Brasil em Moçambique,  que pode nos dizer desta experiência?

Foi boa, mas tem algo que me deixa triste no meio disto tudo, é que, deste convívio entre brasileiros e outros estilistas africanos pude perceber que eles valorizam o nosso trabalho muito mais que nós moçambicanos. Se começássemos a valorizar mais o que fazemos, a possibilidade da nossa moda crescer seria muito maior.

Vários artistas têm desfilado em grandes palcos trajando a marca XIZORO. Recentemente publicou fotos com os internacionais Anselmo Ralph e Gilmário Vemba. Como foram possíveis estes momentos?

Foi muito bom, como se estivéssemos a correr para encontrar água no deserto e de facto encontrássemos, apesar de não haver água lá. E este sentimento começou ao vestir os Black Motion, o que me deu mais vontade de trabalhar. Os primeiros casacos que o Anselmo Ralph e Gilmário Vwmba vestiram, foi uma oferta, mas gostaram do que viram e compraram mais.

Quanto à parcerias à nível nacional?

Em Moçambique tenho vestido o rapper Lay Lizzy e o cantor Ubakka. Recentemente consumamos um contrato com  DJ Damost. Vendemos também um casaco ao vivo para o Gilberto Mende. E muitas novidades estão por vir.

Quantas colecções já criou e quantas lançou?

Como XIZORO, 4, nesta ordem  Long Line, em seguida African Roots, o Miss hot-spot e por fim Mudjanse.

E desta qual é a favorita?

Mudjansse, pela originalidade do nome. É uma colecção que eu penso que está a vender mais pelo nome.

Sonhos por realizar?

Quero sempre inspirar porque desta forma consigo alcançar todos outros sonhos e ter um atelier grande, ter o nome reconhecido, ser a referência de moda em Moçambique, quero que XIZORO seja o seu sinónimo.

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